23 maio 2006

Mudança de ares

Contigo vou a todos os lugares,
Testemunhar todos os luares
Ainda que em lombo de muares
Até o Quilombo de Palmares
Cicatrizando quaisquer mares
Ou de volta a Buenos Aires
Mas se comigo não te casares
Rendo-me de vez aos velhos bares.
Brasília, maio de 2006

22 maio 2006

Carola

O percurso era o miserável cotidiano. Saída para o almoço. Nada especial. Multidões em desjejum. Multidões de poucos adjetivos. Pausa abrupta. O rosto era lindinho, branquinha, nariz arrebitado, cabelos lisos, longos, castanhos. Paulistíssima. Do tipo carola boa, dessas de periferia. Bonita entre feias. Muito bonita entre muito feias. E os quinhentos estavam mesmo abaixo do pescoço. Formas musicais. É, de violão; não deu pra achar metáfora menos gasta. Gostosa, que outra palavra? Cintura fina, encaminhada por blusinha preta, apertada. Tal qual fronteira, a cinturinha separava e emendava terras abundantes, latifúndios carnais. As coxas e as bundas constrangidas com veemência por jeans dos baratos. E os seios escapavam à superfície do decote, insuficiente frente ao par de necessidades. A pele do colo, branca, polpuda, reluzente na luz do frio, convidando-nos todos às posteridades mais sufocantes do início de tarde. Só uma jaquetinha a lembrar da carolice. Em quinze segundos, de novo a angústia impotente dos quinze anos. Catatônico, catártico, freada ridícula, torcicolo, adolescente. Arrastava-a um namorado. Crente, sem rosto, nem cores. Concorrência fraca, ela seria até possível fosse um dia especial. Quinze segundos. Multidão em jejum, multidões sem adjetivos.
Brasília, maio de 2002

18 maio 2006

Professor

Todos os dias. Menos quinta, quando, presume-se, dava aulas. Era sua rotina em um boteco, daqueles comuns a nós todos. À companhia, uisquinho ou caipirinha. Sempre no diminutivo: é a intimidade. Inicialmente, gelo no copo, logo, na corrente urinária, tudo rumo ao vaso sanitário. Um cigarrinho, quase sempre carlton vermelho, a cada quarto de hora levado à boca. Perninha cruzada como os intelectuais e os caipiras, daquele jeito que uma coxa sobrepõe-se quase completamente à outra e que o pezinho fica balançando, dentro de sandálias comuns aos pescadores e aos comunistas. Só desfilava de camisas de manga curta, todas alheias à moda, algumas bem coloridas, até floridas. Quando a sena acumulava, fazia uma fezinha. Dez reais religiosamente investidos na pacificação da consciência, transferidos à mão desses vendedores de sonhos que gritam “45 milhões!” com a mesma indiferença com que oferecem amendoim torrado. O bar era sua segunda casa, seu home pub, uma extensão de si, seu nicho de identidade. Lá, era o professor.
Porte mediano, branquelo, dourado pela experiência solar. Barbas fartas nos bigodes, costeletas e, claro, no queixo. Madeixas semilongas - todas há muito brancas. Óculos de magistério e barriga laboriosamente conquistada naquele e em tantos outros bares... Mas o que verdadeiramente convocava atenção para sua figura era a infinita reciclagem de suas companhias. Comprimindo, vai lá, umas 50 e tantas primaveras e carnavais em seu curriculum vitae – embora pouco fizesse referências às primaveras e não tivesse guardado todas as memórias de seus carnavais – o professor era uma unanimidade entre os freqüentadores do boteco. Jovens, senhoras, contemporâneos, garçons, homens que poderiam constar de sua prole, engravatados, putas, todos orbitavam à mesa do professor. Cumprimentavam-no efusivamente, cheios de intimidade e carinho. As meninas – nem sempre tão meninas – enchendo-o de beijinhos nas bochechas. Todos, sem exclusão, trocando minutos ou horas de prosear com o sol daquele nanocosmos. Se estava só, é porque alguma de suas companhias fora ao banheiro ou acabara de partir, e, naturalmente, outra estava por chegar. Logo, um sorriso de bêbado ou o pedido de um dos agregados para esquentar-se num abraço fraterno, paterno ou professoral.
Quando ela passava, ela, uma qualquer de formas sinuosas, poucos se viravam para contemplação naquele bar amigo de frouxos e balzacas. O professor, e nós, naturalmente, acompanhávamo-na com os olhos até as curvas fugirem no horizonte. Depois, sabidos, nós e o professor, da admiração que compartilhamos (aliás, nosso mais aparente ponto em comum, além do comparecimento ao mesmo recinto), consentíamos com a cabeça, franzindo as sombrancelhas, sem qualquer exagero ou afetação. O professor preferia as calipígeas, sem distinção de idade ou gosto para se vestir. Não, talvez naquela idade não preferisse nada em especial, parecia saciar-se com a exposição da carne feminina. À hora de ir embora, outro consentimento discreto.
Com ele rivalizávamos, sem sucesso, pela condição de clientes mais assíduos do local. Mas mesmo quando o lográssemos em freqüência, em nada lhe assemelhávamos em presença e importância. Ele, o professor. Nós, pupilos.
Consta no imaginário discente que o professor foi hippie, viajou sem bagagem nem roteiro, rodou alguns continentes, dormiu com toda uma geração, bebeu, fumou e injetou o que estava à mão. Exilado pela ditadura, engrossou o coro dos libertários, fez do mundo livre seu porto seguro, circulou manifestos de punho próprio. Foi yuppie, ganhou muitíssimo dinheiro na bolsa de valores e cheirou toda uma pequena província de um país andino. Foi grunge, alcançou algum sucesso com a música, foi pioneiro no ramo da informática, dormiu com outra geração.
Ministrou aulas em quase tantas cidades quanto os estabelecimentos noturnos em que desfaleceu inconsciente. Não tardou em lecionar privadamente para suas alunas de mais indulgência. Irradiou saber, sem paralelo em litrometragem. Fez amizades, de políticos e caminhoneiros, de bandidos aos de mais fé. Conheceu as personalidades, as locais, é verdade, mas também algumas de mais manchetes, de todos os seus tempos. Escreveu toda uma prateleira de livros, tocou violão em ginásios lotados, viveu de esculturas num refúgio de bacanas, ganhou uma eleição para vereador num município que não existe mais.
Verdade? Não. Sim! Talvez... Quem sabe? Professor da vida, de histórico acadêmico irrepreensível, brilhante. Graduou-se, fez mestrado, doutorado, pós-doc, livre-docência... em gente! Se viveu todas e mais outras, as recordações permanecem guardadas, sem a necessidade de chaves, na imaginação de seus aluminados ou nos encontros etílicos consigo mesmo em um travesseirinho magrinho e surrado.

Brasília, outubro de 2004