02 abril 2012

Sexta-feira samba

Chegou sexta-feira. Hoje tem samba. Tira o terno, mete uma calça jeans, afrouxa aí a gravata. O endereço é meio estranho, mesmo em Brasília, mas ajuda a preservar uma democrática exclusividade – ou seria uma exclusiva democracia? Em conhecendo o esquema, entra quem quer, canta quem quer, se diverte também só quem faz questão; à condição só de, antes de o sol expulsar, ir embora voluntariamente. Só que, antes disso, a noite a se atravessar.

As cores e os tons distorcidos pela meia-luz, produzida, de um lado, pelas poucas chamas à mesa e também pelas lâmpadas de brilho hesitante, penduradas no teto, sofrendo de vertigem pela altura que as separam do chão de estrelas; de outro, pelo escuro ofertado pelo firmamento, sempre mais negro do que azul, ora salpicado de marias e cruzeiros; ora povoado por nuvens, essas de todas as formas, cores e tamanhos, a prenunciar que o céu também tem direito a se emocionar com a nossa festa. Um impressionismo de Van Gogh, mais do que o de Renoir, por mais noturno, boêmio e humano: antes Café de Terrace do que ponte sobre o laguinho.

As imagens borradas pela ausência dos óculos de grau, esquecidos propositalmente em casa ou deixados ao abrigo do carro, só para lembrar-me de que a juventude é uma batalha diária para o jovem a envelhecer na repartição. Serve também para preservar a ilusão de que as meninas do Leblon e da Asa Norte continuam a olhar pra mim. E – por que não admiti-lo? – para permitir que elas, aquelas mais afeitas ao tato do que aos olhos, sejam depositárias de desejos indizíveis em horário nobre.

As lembranças embaçadas pela bebida. Sim, sexta-feira é fuga e conforto na embriaguez. Sua noite talhada para escolhermos o personagem de conveniência, uma versão melhor, mais divertida e inconveniente de nós mesmos, dois tons acima. A cerveja inteligentemente gelada, como deve ser nos trópicos. A minha é sua, a sua é minha, antes que esquente. Quando esquentar, é do chão. No terreno etílico, ao menos em nossas sextas-feiras, não se pratica a monogamia. A pinga, também geladinha, em doses prudentemente menores e mais infrequentes. A dor de cabeça, freguês, tá garantida. Mas só amanhã de manhã. E a manhã é preocupação para amanhã.

O bar do Marcelão, asfaltado por azulejos, como no Rio dos meus sonhos – ou naquele do Nelson Rodrigues, nos anos 70, antes ou sempre. A vida como ela é é a vida exatamente como a gente queria ela fosse, pelo menos a cada sexta-feira samba.

Brindam-nos com sua presença Cartola e Adoniran, Chico e Zeca, Clara e Marisa, Martinho, Paulinho e Toquinho. E Vinícius, ele sobretudo, pelo menos para mim. Todos encarnados pelo Gustavo, criador e messias daquele universo, mesmo em sua ausência portenha. O samba em toda a sua seriedade e liturgia, com sua alegria melancólica, com as saudades congênitas do momento que se está vivendo. O violão para trazer respeitabilidade; o cavaquinho, brasilidade; obumbo, um fundo épico; às vezes, só às vezes, a beleza triste da cuíca; e o coral de vozes, um mosaico perfeito de fragmentos imperfeitos, do qual você e eu, uma vez pelo menos, já participamos.

E têm as moças, as divindades e as de todos os dias, as sambistas e as patricinhas, as burguesinhas chicólatras e as hipongas do Lago Sul, as muitas indiferentes, as poucas interessadas, as interessadas em pele de indiferença, as indiferentes transpirando falso interesse, as minhas, as quase minhas, as infelizmente jamais minhas, as infelizmente só uma vez minhas, as ex-minhas e, finalmente, ela, a-quem-sabe-um-dia-de-novo minha. Corpos sem rosto, rostos sem corpo. Decotes sem dona, pernas sem logradouro. Corações cheios e vazios, convidativos e proibidos.

E os amigos, sempre, muitos, todos, nossos, vocês. Longas horas de voo em terra firme, litrometagem de dar inveja a alambique. Saliva bem gasta, abraços bem dados, na chegada, no durante e na partida, mas só para quem merece e para quem quer. A sexta-feira samba como palco, frequentemente na função de maestro, a dirigir a cumplicidade que se estabelece entre os camaradas – ou a variação do tema que melhor lhe aprouver. A certeza de que daquele momento – se lembra, meu irmão? – a gente vai se lembrar até quando a cabeça nevar e a prole começar a gostar de samba.

A sexta-feira samba é habitar o Brasil, mesmo que longe dele. Todos os sentidos esbaldados em comunhão e as emoções em amálgama. A sexta-feira samba como saudade, como espera simultânea da próxima. A certeza de que aquilo, um dia, vai acabar. Vai acabar, porque eu vou ter mesmo que ir embora. Vai acabar porque essas coisas sempre acabam, não se lhes é permitido continuar, porque esta, feliz ou infelizmente, é a lógica deste mundo. As saudades da sexta-feira samba durante ela própria, tal como é com o próprio samba, que sabe se cantar e se chorar.

O convite – ou melhor, a intimação – costuma invadir minha caixa eletrônica, com regularidade quase tão religiosa quanto a devoção que a ele se deve. Quase sempre a primeira sexta-feira do mês, uma data, para nós pagãos, já santa.
Washington, DC, outubro de 2011

O trem noturno

Mal entro no vagão-restaurante do trem noturno e o barman, avistando-me a distancia, se antecipa:
Mr. Nasser, so good to see you. The usual, I take it.
Habitué do noturno que singra dos pantanos washingtonianos até o coração de pedra de Manhattan, por trabalho ou por lazer, respondo:
Johnnie Walker Black Label, tall glass, three rocks: The usual, Charles”.

Distraio-me com a bossa nova a irrigar o ar, algo entre a arte suprema e a musica de elevador: batata, Bebel Gilberto. Na mesa do fundo do vagão, noto, pelo reflexo do espelho, um rosto familiar, algo envelhecido, o fogo dos cabelos apagado pelas cinzas da meia idade. Roma, uns seis ou sete anos antes, em um dos poucos bares de final de noite da Cidade Eterna. Juras de amizade eterna, de contato estreito, de convites recíprocos: promessas não-cumpridas de lado a lado, quiçá com mais frustração deste. Havíamos ambos escalado as colinas de nossas organizações, Cliff chegado mais alto.
How are you, Cliff?” – interrompo a leitura e o drinque.
Old chap, what a surprise”. – O sotaque britânico acentua o caráter multinacional do encontro.
Novas promessas, novas juras, novos convites, desta feita efetivamente confirmados. Uma temporada no Algarve, com esposas, após a reuniao de Istambul. Networking nos tempos de Facebook, sem necessidade dele.
***
Quase não consigo ficar em pé. O trem faz curvas tão inadvertidas que preciso me apoiar na grade que impede as malas e outros apetrechos asquerosos de cairem sobre as cabeças alheias ou, pior,sobre a minha. Uma senhora, cujo quadril supera largamente o vão entre as cadeiras, se levanta à minha frente com uma agilidade atlética desproporcional à sua silhueta e saúde, permitindo-se dispensar solenemente qualquer mesura. Perdão: solene era seguramente uma palavra ausente no vocabulário e no repertório de comportamentos daquele dinossauro precoce.
Chego ao arremedo de bar do trem: Doritos de várias cores, sabores e, infelizmente, cheiros; Coca-Colas de todos ou nenhum açúcares; latas de Budweiser todas estupidamente geladas – estupidamente mesmo. O atendente, maltratado ao longo de muitos e longos quilômetros – miles! –, grunhe. Eu grunho de volta: coffee. Hediondo, o chafé era de envergonhar até carioca.
De volta ao meu assento, minha esposa tenta dormir ao som da orquestra de reclamações, choros, palmas e, pior, apitos emitidos pelo videogame de uma mocinha cuja sonora família estava recém-instalada em nossa vizinhança – para o nosso azar e do resto da vizinhança. A tregua só nos é concedida quando a voz robótica e desinteressada do maquinista anuncia a chegada à Penn Station.
***
It’s the night train, not the Orient Express, for Christ’s sakes”. – um amigo de mais luzes e menos esperanças já me havia antecipado. A vida na estação da pós-modernidade é bastante mais Northern Regional do que Orient Express.
Washington, DC, junho de 2011

26 março 2012

Pardalzinho

A onomatopeia quase ganhou de volta o acento com a voadora que Pardalzinho ofereceu a Cabeça de Bagre. Ofereceu, né?, porque, se pudesse opinar, Cabeça – o apelido do apelido pelo qual o já ex-atacante se notabilizou em treze temporadas na terceira divisão do futebol paulista – a teria olimpicamente recusado. Bem, olímpica não, porque as pretensões desportivas de Cabeça sempre foram mais locais. A gentileza de Pardalzinho, afinal, custou a carreira ludopédica a um hoje bem sucedido feirante de Sorocaba.

À ocasião deste encontro de cavalheiros, Thiago Menezes Cabral Gonzaga Neto – o Pardalzinho – só engatinhava nos gramados, de aqui e alhures. Bom de bola nunca foi. Mas marcava firme, isolava a pelota com rara imprecisão, exercia uma certa liderança bronca sobre o setor defensivo das equipes que veio a defender. Rodou o mundo, esteve na Zoropa, Inglaterra, Hungria, Isteites, Miami e nas Arábias. Ganhou euro e dólar. Comprou apartamento pros velhos e caminhonete pro irmão mais novo. Aprendeu até inglês: pés daból, porra.

Já maduro, voltou para a Auriverde. Tinha completado 24 verões e sete temporadas. Foi para o 15, de Jaú. Compôs o setor de proteção da zaga com outro andarilho deste mundo: Jorginho Paraíba, duas convocações para a Amarelinha no resumê. Com a retaguarda protegida, o 15 chegou a emplacar três vitórias seguidas, uma delas diante do temido Guarani de Campinas. 1 a 0 fora de casa, lá no Brinco de Ouro da Princesa. Gol de quem? Graaaande Pardal, de cabeça, pro fundo da rede, cujo único comentário foi “porra de estádio com nome de viado”. Ao final da temporada, acabou contrado pelo próprio Bugre campineiro. Olha a ironia aí, gente.

Primeira divisão é outra história, peladeiro. Viagem de avião e TV Globo. Nome citado pelo Galvão, pelo Falcão e, dada a frequência de seus acertos – nas canelas alheias – até pelo Arnaldo. A reserva do Guarani de Campinas superava seus delírios juvenis. Era feliz e o sabia.

Foi numa churrascaria na Barra da Tijuca, depois da derrota para o Botafogo pelo Brasileirão, que Thiago – Pardalzinho é nome de relva, parceiro – colou os olhos nela. Cabelos loiros, decote, bunda grande e saia curta, moça nova. É princesa, porra. Não precisou de meio dedo de prosa pra saber que até curso superior tinha: advogada. Tô amando.

O casório teve dupla sertaneja famosa e uisque doze anos. Saiu foto no Jornal dos Sports. O pai da moça, botafoguense das antigas, fez graça do genro. Foi somente a partir de uma foto da celebração, postada no Facebook pela moça que aparecia de branco, que sua existência foi revelada para o grande público e, diriam alguns, descaradamente inventada.
Washington, DC, março de 2011.

29 maio 2010

O sujeito

O sujeito abriu a janela e viu a baía de Guanabara. O mar atiçava a areia com seus dedos, em movimentos ondulares. O Oceano Atlântico roncava azul: baixinho, contínuo, pra sempre. As montanhas, ao fundo, pareciam tripudiar da tragédia humana que a Zona Sul escondia. As cariocas desfilavam seus rebolados para lá e para cá, no extenso picadeiro de ondas brancas e pretas. Um navio cargueiro e um cruzeiro, lá de longe, invejavam os que estavam deste lado do cenário.
O sujeito sentou-se ao parapeito. Viu o mar flertar com a areia. Focou uma ou outra carioca de rebolado mais ondular. Testemunhou a briga dos carros com as motos nas raias da Avenida Atlântica. Viu uma onda amarela de táxis levando locais e turistas do Leme para Ipanema – ou para qualquer lugar onde pensassem que iriam encontrar a felicidade e um mundo menos hostil. Acompanhou alguns segundos, não muitos, de um clássico do futebol local – um gol a gol de um cara marrento contra outro cara ainda mais marrento nas areias da praia. A vitória, por motivos de justiça divina e terrena, deveria ser destinada ao primeiro, assim lhe pareceu.
O sujeito deitou-se no parapeito. Ficou a espiar um outro mar, este celeste. Mais silencioso, mais eterno, menos azul. Uma nuvem caçoava da tragédia humana que se estendia sob ela. Outra invejava os que estavam aqui embaixo. Passou um avião cheio de gente procurando a felicidade e menos hostilidade alhures.
O sujeito pegou no sono. Sonhou que o rebolado de cariocas e paulistas e gaúchas e gringas tinha ele mesmo como audiência única. Sonhou com nuvens e aviões e navios que tinham somente ele e pessoas interessantes como passageiros. Sonhou com gols, com os literais e os metafóricos. Sonhou com beleza, justiça e tranquilidade. Sonhou com o Rio de Janeiro e alhures.
O sujeito acordou com as sirenes. Ouviu – não tinha como não ouvir – o zumbido dos helicópteros, o dos bombeiros e o da TV. Luzes, câmera, ação debaixo do seu nariz e do parapeito que lhe serviu de leito. Aquele que parecia o líder do grupo – tinha até patente – gritava palavras de tranquilidade num megafone. Entoava hinos morais sobre a importância da vida e a desimportância da morte. Apelava para os sentimentos dos pais já falecidos e os dos filhos ainda não nascidos. Sim, era com o sujeito que o capitão falava: “Não pule, senhor. Podemos ajudá-lo”. Uma audiência se acumulava nas raias da Avenida Atlântica e do Oceano que lhe é xará. As luzes, câmeras e ação eram para ele – o sujeito que abriu a janela para flagrar o mar namorando o céu e flertando com a areia na baía de Guanabara.
O sujeito acordou e voltou para o seu quarto, fechou a janela e ligou a TV, onde um mundo mais feliz e menos hostil apareceu para ele imediatamente.
Rio de Janeiro, maio de 2010

02 agosto 2007

O último chorinho

Acelerou e se foi. Teve antes dificuldade para sair da vaga: dirigir era o último de seus talentos, não obstante o fizesse com pose de quem comanda as tropas aliadas ou desfila para a Victoria Secrets. De fora do carro, tentei ajudá-la a manobrar, mas preferia que não se fosse. Queria mesmo que ficasse. Comigo. Para sempre.

As lágrimas me vazaram caudalosas, sem pena do dono. Eram as saudades de um futuro que me saudou, só pra depois se despedir, sem qualquer cerimônia. Era a falta de você e eu, amor, dá beijo no olho. Era a ausência física de uma aliança eternizada com o nome dela e com uma data só nossa. Era a bronca com os nossos meninos, que teimam em não vir dotar-me de sentido e de eternidade. Era a distância do olhar dela, aquele mesmo, do eu te amo mais do que você consiga imaginar em tantos tons de açúcar e de mel. Era a sensação de que se esvaia o alucinógeno que mareou com magia a minha visão da terra e do céu. Era a decepção com todas essas cidades e serras miseráveis que prometeram ser encantadoras aos meus sentidos e que agora estão privadas da companhia dela. Era o Leblon de todos os meus sonhos com ela, já sem ela.

Ela quis morrer pra mim, só para que ela pudesse deixar de ser ela mesma. Ela quis morrer pra mim, mas, antes, ela viveu intensamente em todos os meus órgãos vítimas de metáforas fáceis dos quais ela havia sido a proprietária. Ela quis morrer pra mim, mas, antes, ela viveu em cada dos meus segundos, que de tão cheios de amor-e-tesão-e-futuro-e-vida pareceram até minutos de glória romântica. E nossos minutos juntos assemelharam-se a horas de plenitude em Roma ou no quintal da vovó. E os dias com ela, e principalmente as noites, foram iguaizinhos ao amor dos filmes tristes, antes de o serem. E nossos poucos anos se pareceram com uma vida inteira feliz.

Ela, que por bastante tempo – aliás, bastante nada! – preencheu este vácuo torácico, que agora voltou, fincou pé e já não quer mais largar do meu. Ela, que me deu de presente aquelas lentes, e agora me roubou as cores do mundo. Ela, que levou embora também a graça que tinha me emprestado. Ela, que, é claro, tinha sido trazida à luz só pra ficar comigo e me deixá-la fazer feliz até o fim do rio. Ela, dona daquele corpo desenhado por um algoritmo celeste e diabólico, feito para condenar-me ao desejo e às saudades. Ela, que, já despejada da suíte imperial dos meus afetos, sabe que sua tatuagem só escorrerá depois da última rebolada da lua. Ela, que, pouco antes de entrar no maldito carro, estivera tão ausente em minha presença, e cuja ausência me segue tão irremediavelmente presente.

Eu, que, talvez até prematuramente, fui brindado com a descoberta da praia deserta onde passa o meridiano em que a paixão se transforma em amor. Eu, que me perguntei em tantas noites, no escuro e no claro, se era possível haver alguém estágio superior de realização e de felicidade fora dela. Eu, que fui sedado com a ilusão de que todas as nossas coincidências nos almagamaram num fim de tarde sem som nem defeitos em Pirenópolis. Eu, que achava que tinha renunciado à liberdade em nome de um amor que não dá pra se viver sem. E que só percebi agora que estou verdadeiramente preso, trancado numa solidão cuja chave só ela tem.

Eu, que fiquei e chorei. Ela, que acelerou e se foi.

Brasília, julho de 2007

27 outubro 2006

Conversas de meia-noite com Pipe Pipoca

Pipe Pipoca foi o filho mais velho da minha mãe com meu pai; irmão mais velho da minha irmãzinha caçula. Nossa relação, no entanto, se restringe ao compartilhamento do mesmo corpo, que amadureceu ao longo de tantos janeiros e já sôfrego de alguns excessos. Desconhece-se o paradeiro do menino, que desapareceu em algum contemplar do mar, no fundo de uma garrafa, nos desvios de uma estrada ou iludido pelos cheiros do amor. Há quem diga que Pipe Pipoca e eu ainda guardamos o mesmo olhar, de malandragem e auto-piedade. Fora isso, pouca coisa nos uniu por muito tempo. Foram as melancólicas, embora animadas, conversas de meia-noite que nos reaproximaram.
Descobri que aos quatro anos, o Pipe Pipoca perguntou a uma tia querida, de posse de um globo daqueles que acendem, se ele poderia ter o mundo até os oito – a primeira idade da maturidade ante seus olhos. A tia disse que até os quarenta – casa aproximada do pai à época - era possível. Chegando aos oito, Pipe decidiu o que queria da vida. De alguma maneira mantinha a idéia do globo luminoso.
Mas ai chegaram os mares, as garrafas, as estradas e os cheiros do amor...
Decepcionar o Pipe Pipoca é a maior dor que jamais experimentei. Em nossas conversas de madrugada, ele me confessou que aos 21 anos eram superadas suas mais ambiciosas expectativas quanto às possibilidades da vida. O de 24 o frustrava profundamente. O de 21 dava a impressão de, ao mesmo tempo, ter construído alguma coisa e de viver a vida com paixão. O de 24 deixou a vida correr, embora a tenha vivido com entusiasmo raro.
Só o de 25 poderá acalentar a tristeza de Pipe Pipoca. O de 40 dificilmente terá o mundo, mas não mais decepcionarei o Pipe Pipoca nem este escriba.
Brasília, 2005

Pra tudo se acabar na quarta-feira, parte I

Devo ter procurado Diamantina em meus sonhos por muitos anos e sonos. Mesmo desconhecendo seu nome ou sobrenome. Também me fugiam seu logradouro real, aparência e, afinal, a data de quando se poria ante meus olhos. Identificava-a em tons borrados, em imagens parcialmente identificadas. Reconhecia-a em aspecto geral, em algumas feições. Sabia das multidões ensandecidas, tinha uma antevisão das ruas apertadas, da descoberta de mistérios a cada encontro de dois becos. Conhecia-a somente do gosto saudoso das sensações reveladas pelo meu peito ansioso e premonitório.
Diamantina Minas Gerais, muito prazer. Mora pacata e bucolicamente entre serras mineiras. Cidade histórica, foi rota dos diamantes do ciclo de extração de minérios do século XVIII, de lá nasceu o lendário presidente JK. Conservou seu aspecto setecentista, tombada pelo patrimônio histórico da Unesco, manteve-se no formol dos tempos, relativamente imaculada pela modernização; virgem de seus vícios, carente de suas virtudes. Não fossem as lâmpadas elétricas nas ruas e algumas outras poucas inovações tecnológicas, transmitiria ao viajante inadvertido a impressão de regresso ao Brasil colonial ou mesmo a uma vila ibérica de séculos atrás. Arquitetura barroca, chão de pedra, ladeiras cicatrizando a geografia pré-urbana compõem a paisagem de um reduto de charme que resguarda em sua alma passagens ilustrativas da história nacional.
Ocorre que a cada fevereiro ou março (varia o mês segundo um calendário cujo funcionamento prefiro desconhecer), a histórica, pacata, bucólica, turística e charmosa cidadela do interior mineiro sai do casulo de castidade e transforma-se em palco de excessos, de prazeres, de frustrações, de encontros, desencontros, de euforia atroz. Multidões, orçadas de 40 a 100 mil pessoas, ocupam a praça central do Mercado Velho, a Rua da Quitanda e, ao que me parece, as ruelas e esquinas de cinco outros quarteirões centrais, buscando não muito mais que a ebriedade dos entorpecentes de variada tipologia, a cumplicidade dos comparsas viajantes e, sobretudo (sejamos francos, já que estamos no Brasil mesmo), a satisfação amorosa-sexual.
Ao som literalmente diuturno de orquestras populares que combinam temas da música popular brasileira - sabidos de cor, cantados em letra e gritados em refrão indiscriminadamente por todos os convivas, independente da pigmentação de suas peles, da disponibilidade de meios de pagamentos em suas carteiras ou do credo em seus corações - com uma batucada ritmada de colorido afro-brasileiro, multidões embalam-se no carnaval de Diamantina.
De vez em quando cai uma tempestade, que só contribui para que homens e mulheres, meninas e meninos busquem com maior afinco o calor do sexo oposto. Pronto! Música alta, multidão e chuva são os pretextos para o povo beijar na boca.
Invariavelmente, a noite metamorfoseia-se em manhã, em um espetáculo de rara beleza, não obstante inevitável – talvez só não nos seja notável na opressão da rotina. Após uma noite atravessada de desgaste físico, satisfação carnal e explosão inconsciente de brasilidade, a banda brinda-nos com canções cujos versos parecem ter sido compostos para servir de trilha sonora para o momento, ao passo que o Sol sai de seu refúgio atrás das montanhas e resolve dar as caras, passando a iluminar o sítio, a constranger os olhos cansados dos convivas e a conformar o espetáculo natural em fusão com o humano
O roteiro para participar desta folia com um quê de lirismo: saindo de Brasília, toma-se a BR-040 até Felixlândia, dobra-se à esquerda rumo de Curvelo, onde, por sua vez, encara-se o trecho final pela BR-259. Uns 750 km da porta de casa a um jardim dos prazeres. Assim foi por três carnavais da minha juventude.
Não saberia dizer onde tudo começou, nem sei se é tão importante buscar as raízes na minha história pessoal da minha aterrissagem em Diamantina. Fato é que na sexta-feira de carnaval de 2002 estava dirigindo meu carro em seu rumo, em 2003, repetia o itinerário e, na quarta-feira de cinzas de 2004, dormia no caminho de volta o sono dos saudosistas.
Carreguei e fui carregado por grupos diferentes de amigos a cada ano, cruzei com colegas de diversas origens, hospedei-me em cantos distintos da cidade. Mas aquela que recebeu meus beijos mais sinceros foi a mesma, inquilina do meu coração, somente por aquelas temporadas, e protagonista da história que um dia pretendo narrar.
Diamantina é a expressão quintessencial da minha juventude; é onde meus delírios de puberdade se verteram em realidade e onde já recaem as mais flagrantes saudades do início de uma adultice que poderia demorar mais para chegar.
Brasília, 2004

Jus eros

Vou me mudar pra Brunna
Pra aprender a falar brunnês
Vou fazer de sua e minha etnia una
De sua religião confessar-me freguês.

Lá me apossarei das praias
Lá suas florestas irão me tragar
Lá naufragarei em suas saias
Só pra rimar verbos terminados em ar.

Gosto de me fartar de suas iguarias
Para adormecer sob a loira luna
Gosto de rejeitar as forasteiras marias
Para embriagar-me só dos vinhos de safra brunna.

Preciso surfar em suas montanhas
Necessito poetizar em seus bares
Costumo romancear nossas façanhas
E me matar de amor em seus mares.

Retrato sua vida noturna
Canto a um país feito por dois
Pago tributo a sua alegria soturna
E rendo-me à nação que sois.

Tenho já pele encantada de seu Sol
Tenho já de cor sua constituição
Sou torcedor da Seleção Brunna de Futebol
E Grêmio Recreativo Unidos da Brunna de coração.

Agora Brunna é meu país
É onde estou livre do imoral
Sei que aqui não tenho raiz
É tarde! Já pedi asilo sexual.

Minha pátria,

Quero discursar na ONU em seu nome
Quero um infinito laissez-passer
Quero ser-lhe o menino e o homem
Quero seu presidente me eleger
Quero me fazer escravo de suas delícias
Quero todas suas fronteiras percorrer
Quero ser caçado por suas milícias
Quero suas leis desobedecer
Quero revogar sua independência
Quero Brunna recolonizar
Quero ir preso por apaixonada demência
Quero de Brunna & Filipe lhe rebatizar
Quero ser deportado pela aduana
Quero entrar e sair quando preferir
Quero ser solto só pra voltar em cana
Não! Quero entrar em Brunna pra nunca mais sair.

Brasília, março de 2006

23 maio 2006

Mudança de ares

Contigo vou a todos os lugares,
Testemunhar todos os luares
Ainda que em lombo de muares
Até o Quilombo de Palmares
Cicatrizando quaisquer mares
Ou de volta a Buenos Aires
Mas se comigo não te casares
Rendo-me de vez aos velhos bares.
Brasília, maio de 2006

22 maio 2006

Carola

O percurso era o miserável cotidiano. Saída para o almoço. Nada especial. Multidões em desjejum. Multidões de poucos adjetivos. Pausa abrupta. O rosto era lindinho, branquinha, nariz arrebitado, cabelos lisos, longos, castanhos. Paulistíssima. Do tipo carola boa, dessas de periferia. Bonita entre feias. Muito bonita entre muito feias. E os quinhentos estavam mesmo abaixo do pescoço. Formas musicais. É, de violão; não deu pra achar metáfora menos gasta. Gostosa, que outra palavra? Cintura fina, encaminhada por blusinha preta, apertada. Tal qual fronteira, a cinturinha separava e emendava terras abundantes, latifúndios carnais. As coxas e as bundas constrangidas com veemência por jeans dos baratos. E os seios escapavam à superfície do decote, insuficiente frente ao par de necessidades. A pele do colo, branca, polpuda, reluzente na luz do frio, convidando-nos todos às posteridades mais sufocantes do início de tarde. Só uma jaquetinha a lembrar da carolice. Em quinze segundos, de novo a angústia impotente dos quinze anos. Catatônico, catártico, freada ridícula, torcicolo, adolescente. Arrastava-a um namorado. Crente, sem rosto, nem cores. Concorrência fraca, ela seria até possível fosse um dia especial. Quinze segundos. Multidão em jejum, multidões sem adjetivos.
Brasília, maio de 2002