O sujeito abriu a janela e viu a baía de Guanabara. O mar atiçava a areia com seus dedos, em movimentos ondulares. O Oceano Atlântico roncava azul: baixinho, contínuo, pra sempre. As montanhas, ao fundo, pareciam tripudiar da tragédia humana que a Zona Sul escondia. As cariocas desfilavam seus rebolados para lá e para cá, no extenso picadeiro de ondas brancas e pretas. Um navio cargueiro e um cruzeiro, lá de longe, invejavam os que estavam deste lado do cenário.
O sujeito sentou-se ao parapeito. Viu o mar flertar com a areia. Focou uma ou outra carioca de rebolado mais ondular. Testemunhou a briga dos carros com as motos nas raias da Avenida Atlântica. Viu uma onda amarela de táxis levando locais e turistas do Leme para Ipanema – ou para qualquer lugar onde pensassem que iriam encontrar a felicidade e um mundo menos hostil. Acompanhou alguns segundos, não muitos, de um clássico do futebol local – um gol a gol de um cara marrento contra outro cara ainda mais marrento nas areias da praia. A vitória, por motivos de justiça divina e terrena, deveria ser destinada ao primeiro, assim lhe pareceu.
O sujeito deitou-se no parapeito. Ficou a espiar um outro mar, este celeste. Mais silencioso, mais eterno, menos azul. Uma nuvem caçoava da tragédia humana que se estendia sob ela. Outra invejava os que estavam aqui embaixo. Passou um avião cheio de gente procurando a felicidade e menos hostilidade alhures.
O sujeito pegou no sono. Sonhou que o rebolado de cariocas e paulistas e gaúchas e gringas tinha ele mesmo como audiência única. Sonhou com nuvens e aviões e navios que tinham somente ele e pessoas interessantes como passageiros. Sonhou com gols, com os literais e os metafóricos. Sonhou com beleza, justiça e tranquilidade. Sonhou com o Rio de Janeiro e alhures.
O sujeito acordou com as sirenes. Ouviu – não tinha como não ouvir – o zumbido dos helicópteros, o dos bombeiros e o da TV. Luzes, câmera, ação debaixo do seu nariz e do parapeito que lhe serviu de leito. Aquele que parecia o líder do grupo – tinha até patente – gritava palavras de tranquilidade num megafone. Entoava hinos morais sobre a importância da vida e a desimportância da morte. Apelava para os sentimentos dos pais já falecidos e os dos filhos ainda não nascidos. Sim, era com o sujeito que o capitão falava: “Não pule, senhor. Podemos ajudá-lo”. Uma audiência se acumulava nas raias da Avenida Atlântica e do Oceano que lhe é xará. As luzes, câmeras e ação eram para ele – o sujeito que abriu a janela para flagrar o mar namorando o céu e flertando com a areia na baía de Guanabara.
O sujeito acordou e voltou para o seu quarto, fechou a janela e ligou a TV, onde um mundo mais feliz e menos hostil apareceu para ele imediatamente.
Rio de Janeiro, maio de 2010