02 abril 2012

Sexta-feira samba

Chegou sexta-feira. Hoje tem samba. Tira o terno, mete uma calça jeans, afrouxa aí a gravata. O endereço é meio estranho, mesmo em Brasília, mas ajuda a preservar uma democrática exclusividade – ou seria uma exclusiva democracia? Em conhecendo o esquema, entra quem quer, canta quem quer, se diverte também só quem faz questão; à condição só de, antes de o sol expulsar, ir embora voluntariamente. Só que, antes disso, a noite a se atravessar.

As cores e os tons distorcidos pela meia-luz, produzida, de um lado, pelas poucas chamas à mesa e também pelas lâmpadas de brilho hesitante, penduradas no teto, sofrendo de vertigem pela altura que as separam do chão de estrelas; de outro, pelo escuro ofertado pelo firmamento, sempre mais negro do que azul, ora salpicado de marias e cruzeiros; ora povoado por nuvens, essas de todas as formas, cores e tamanhos, a prenunciar que o céu também tem direito a se emocionar com a nossa festa. Um impressionismo de Van Gogh, mais do que o de Renoir, por mais noturno, boêmio e humano: antes Café de Terrace do que ponte sobre o laguinho.

As imagens borradas pela ausência dos óculos de grau, esquecidos propositalmente em casa ou deixados ao abrigo do carro, só para lembrar-me de que a juventude é uma batalha diária para o jovem a envelhecer na repartição. Serve também para preservar a ilusão de que as meninas do Leblon e da Asa Norte continuam a olhar pra mim. E – por que não admiti-lo? – para permitir que elas, aquelas mais afeitas ao tato do que aos olhos, sejam depositárias de desejos indizíveis em horário nobre.

As lembranças embaçadas pela bebida. Sim, sexta-feira é fuga e conforto na embriaguez. Sua noite talhada para escolhermos o personagem de conveniência, uma versão melhor, mais divertida e inconveniente de nós mesmos, dois tons acima. A cerveja inteligentemente gelada, como deve ser nos trópicos. A minha é sua, a sua é minha, antes que esquente. Quando esquentar, é do chão. No terreno etílico, ao menos em nossas sextas-feiras, não se pratica a monogamia. A pinga, também geladinha, em doses prudentemente menores e mais infrequentes. A dor de cabeça, freguês, tá garantida. Mas só amanhã de manhã. E a manhã é preocupação para amanhã.

O bar do Marcelão, asfaltado por azulejos, como no Rio dos meus sonhos – ou naquele do Nelson Rodrigues, nos anos 70, antes ou sempre. A vida como ela é é a vida exatamente como a gente queria ela fosse, pelo menos a cada sexta-feira samba.

Brindam-nos com sua presença Cartola e Adoniran, Chico e Zeca, Clara e Marisa, Martinho, Paulinho e Toquinho. E Vinícius, ele sobretudo, pelo menos para mim. Todos encarnados pelo Gustavo, criador e messias daquele universo, mesmo em sua ausência portenha. O samba em toda a sua seriedade e liturgia, com sua alegria melancólica, com as saudades congênitas do momento que se está vivendo. O violão para trazer respeitabilidade; o cavaquinho, brasilidade; obumbo, um fundo épico; às vezes, só às vezes, a beleza triste da cuíca; e o coral de vozes, um mosaico perfeito de fragmentos imperfeitos, do qual você e eu, uma vez pelo menos, já participamos.

E têm as moças, as divindades e as de todos os dias, as sambistas e as patricinhas, as burguesinhas chicólatras e as hipongas do Lago Sul, as muitas indiferentes, as poucas interessadas, as interessadas em pele de indiferença, as indiferentes transpirando falso interesse, as minhas, as quase minhas, as infelizmente jamais minhas, as infelizmente só uma vez minhas, as ex-minhas e, finalmente, ela, a-quem-sabe-um-dia-de-novo minha. Corpos sem rosto, rostos sem corpo. Decotes sem dona, pernas sem logradouro. Corações cheios e vazios, convidativos e proibidos.

E os amigos, sempre, muitos, todos, nossos, vocês. Longas horas de voo em terra firme, litrometagem de dar inveja a alambique. Saliva bem gasta, abraços bem dados, na chegada, no durante e na partida, mas só para quem merece e para quem quer. A sexta-feira samba como palco, frequentemente na função de maestro, a dirigir a cumplicidade que se estabelece entre os camaradas – ou a variação do tema que melhor lhe aprouver. A certeza de que daquele momento – se lembra, meu irmão? – a gente vai se lembrar até quando a cabeça nevar e a prole começar a gostar de samba.

A sexta-feira samba é habitar o Brasil, mesmo que longe dele. Todos os sentidos esbaldados em comunhão e as emoções em amálgama. A sexta-feira samba como saudade, como espera simultânea da próxima. A certeza de que aquilo, um dia, vai acabar. Vai acabar, porque eu vou ter mesmo que ir embora. Vai acabar porque essas coisas sempre acabam, não se lhes é permitido continuar, porque esta, feliz ou infelizmente, é a lógica deste mundo. As saudades da sexta-feira samba durante ela própria, tal como é com o próprio samba, que sabe se cantar e se chorar.

O convite – ou melhor, a intimação – costuma invadir minha caixa eletrônica, com regularidade quase tão religiosa quanto a devoção que a ele se deve. Quase sempre a primeira sexta-feira do mês, uma data, para nós pagãos, já santa.
Washington, DC, outubro de 2011

O trem noturno

Mal entro no vagão-restaurante do trem noturno e o barman, avistando-me a distancia, se antecipa:
Mr. Nasser, so good to see you. The usual, I take it.
Habitué do noturno que singra dos pantanos washingtonianos até o coração de pedra de Manhattan, por trabalho ou por lazer, respondo:
Johnnie Walker Black Label, tall glass, three rocks: The usual, Charles”.

Distraio-me com a bossa nova a irrigar o ar, algo entre a arte suprema e a musica de elevador: batata, Bebel Gilberto. Na mesa do fundo do vagão, noto, pelo reflexo do espelho, um rosto familiar, algo envelhecido, o fogo dos cabelos apagado pelas cinzas da meia idade. Roma, uns seis ou sete anos antes, em um dos poucos bares de final de noite da Cidade Eterna. Juras de amizade eterna, de contato estreito, de convites recíprocos: promessas não-cumpridas de lado a lado, quiçá com mais frustração deste. Havíamos ambos escalado as colinas de nossas organizações, Cliff chegado mais alto.
How are you, Cliff?” – interrompo a leitura e o drinque.
Old chap, what a surprise”. – O sotaque britânico acentua o caráter multinacional do encontro.
Novas promessas, novas juras, novos convites, desta feita efetivamente confirmados. Uma temporada no Algarve, com esposas, após a reuniao de Istambul. Networking nos tempos de Facebook, sem necessidade dele.
***
Quase não consigo ficar em pé. O trem faz curvas tão inadvertidas que preciso me apoiar na grade que impede as malas e outros apetrechos asquerosos de cairem sobre as cabeças alheias ou, pior,sobre a minha. Uma senhora, cujo quadril supera largamente o vão entre as cadeiras, se levanta à minha frente com uma agilidade atlética desproporcional à sua silhueta e saúde, permitindo-se dispensar solenemente qualquer mesura. Perdão: solene era seguramente uma palavra ausente no vocabulário e no repertório de comportamentos daquele dinossauro precoce.
Chego ao arremedo de bar do trem: Doritos de várias cores, sabores e, infelizmente, cheiros; Coca-Colas de todos ou nenhum açúcares; latas de Budweiser todas estupidamente geladas – estupidamente mesmo. O atendente, maltratado ao longo de muitos e longos quilômetros – miles! –, grunhe. Eu grunho de volta: coffee. Hediondo, o chafé era de envergonhar até carioca.
De volta ao meu assento, minha esposa tenta dormir ao som da orquestra de reclamações, choros, palmas e, pior, apitos emitidos pelo videogame de uma mocinha cuja sonora família estava recém-instalada em nossa vizinhança – para o nosso azar e do resto da vizinhança. A tregua só nos é concedida quando a voz robótica e desinteressada do maquinista anuncia a chegada à Penn Station.
***
It’s the night train, not the Orient Express, for Christ’s sakes”. – um amigo de mais luzes e menos esperanças já me havia antecipado. A vida na estação da pós-modernidade é bastante mais Northern Regional do que Orient Express.
Washington, DC, junho de 2011

26 março 2012

Pardalzinho

A onomatopeia quase ganhou de volta o acento com a voadora que Pardalzinho ofereceu a Cabeça de Bagre. Ofereceu, né?, porque, se pudesse opinar, Cabeça – o apelido do apelido pelo qual o já ex-atacante se notabilizou em treze temporadas na terceira divisão do futebol paulista – a teria olimpicamente recusado. Bem, olímpica não, porque as pretensões desportivas de Cabeça sempre foram mais locais. A gentileza de Pardalzinho, afinal, custou a carreira ludopédica a um hoje bem sucedido feirante de Sorocaba.

À ocasião deste encontro de cavalheiros, Thiago Menezes Cabral Gonzaga Neto – o Pardalzinho – só engatinhava nos gramados, de aqui e alhures. Bom de bola nunca foi. Mas marcava firme, isolava a pelota com rara imprecisão, exercia uma certa liderança bronca sobre o setor defensivo das equipes que veio a defender. Rodou o mundo, esteve na Zoropa, Inglaterra, Hungria, Isteites, Miami e nas Arábias. Ganhou euro e dólar. Comprou apartamento pros velhos e caminhonete pro irmão mais novo. Aprendeu até inglês: pés daból, porra.

Já maduro, voltou para a Auriverde. Tinha completado 24 verões e sete temporadas. Foi para o 15, de Jaú. Compôs o setor de proteção da zaga com outro andarilho deste mundo: Jorginho Paraíba, duas convocações para a Amarelinha no resumê. Com a retaguarda protegida, o 15 chegou a emplacar três vitórias seguidas, uma delas diante do temido Guarani de Campinas. 1 a 0 fora de casa, lá no Brinco de Ouro da Princesa. Gol de quem? Graaaande Pardal, de cabeça, pro fundo da rede, cujo único comentário foi “porra de estádio com nome de viado”. Ao final da temporada, acabou contrado pelo próprio Bugre campineiro. Olha a ironia aí, gente.

Primeira divisão é outra história, peladeiro. Viagem de avião e TV Globo. Nome citado pelo Galvão, pelo Falcão e, dada a frequência de seus acertos – nas canelas alheias – até pelo Arnaldo. A reserva do Guarani de Campinas superava seus delírios juvenis. Era feliz e o sabia.

Foi numa churrascaria na Barra da Tijuca, depois da derrota para o Botafogo pelo Brasileirão, que Thiago – Pardalzinho é nome de relva, parceiro – colou os olhos nela. Cabelos loiros, decote, bunda grande e saia curta, moça nova. É princesa, porra. Não precisou de meio dedo de prosa pra saber que até curso superior tinha: advogada. Tô amando.

O casório teve dupla sertaneja famosa e uisque doze anos. Saiu foto no Jornal dos Sports. O pai da moça, botafoguense das antigas, fez graça do genro. Foi somente a partir de uma foto da celebração, postada no Facebook pela moça que aparecia de branco, que sua existência foi revelada para o grande público e, diriam alguns, descaradamente inventada.
Washington, DC, março de 2011.