Acelerou e se foi. Teve antes dificuldade para sair da vaga: dirigir era o último de seus talentos, não obstante o fizesse com pose de quem comanda as tropas aliadas ou desfila para a Victoria Secrets. De fora do carro, tentei ajudá-la a manobrar, mas preferia que não se fosse. Queria mesmo que ficasse. Comigo. Para sempre.
As lágrimas me vazaram caudalosas, sem pena do dono. Eram as saudades de um futuro que me saudou, só pra depois se despedir, sem qualquer cerimônia. Era a falta de você e eu, amor, dá beijo no olho. Era a ausência física de uma aliança eternizada com o nome dela e com uma data só nossa. Era a bronca com os nossos meninos, que teimam em não vir dotar-me de sentido e de eternidade. Era a distância do olhar dela, aquele mesmo, do eu te amo mais do que você consiga imaginar em tantos tons de açúcar e de mel. Era a sensação de que se esvaia o alucinógeno que mareou com magia a minha visão da terra e do céu. Era a decepção com todas essas cidades e serras miseráveis que prometeram ser encantadoras aos meus sentidos e que agora estão privadas da companhia dela. Era o Leblon de todos os meus sonhos com ela, já sem ela.
Ela quis morrer pra mim, só para que ela pudesse deixar de ser ela mesma. Ela quis morrer pra mim, mas, antes, ela viveu intensamente em todos os meus órgãos vítimas de metáforas fáceis dos quais ela havia sido a proprietária. Ela quis morrer pra mim, mas, antes, ela viveu em cada dos meus segundos, que de tão cheios de amor-e-tesão-e-futuro-e-vida pareceram até minutos de glória romântica. E nossos minutos juntos assemelharam-se a horas de plenitude em Roma ou no quintal da vovó. E os dias com ela, e principalmente as noites, foram iguaizinhos ao amor dos filmes tristes, antes de o serem. E nossos poucos anos se pareceram com uma vida inteira feliz.
Ela, que por bastante tempo – aliás, bastante nada! – preencheu este vácuo torácico, que agora voltou, fincou pé e já não quer mais largar do meu. Ela, que me deu de presente aquelas lentes, e agora me roubou as cores do mundo. Ela, que levou embora também a graça que tinha me emprestado. Ela, que, é claro, tinha sido trazida à luz só pra ficar comigo e me deixá-la fazer feliz até o fim do rio. Ela, dona daquele corpo desenhado por um algoritmo celeste e diabólico, feito para condenar-me ao desejo e às saudades. Ela, que, já despejada da suíte imperial dos meus afetos, sabe que sua tatuagem só escorrerá depois da última rebolada da lua. Ela, que, pouco antes de entrar no maldito carro, estivera tão ausente em minha presença, e cuja ausência me segue tão irremediavelmente presente.
Eu, que, talvez até prematuramente, fui brindado com a descoberta da praia deserta onde passa o meridiano em que a paixão se transforma em amor. Eu, que me perguntei em tantas noites, no escuro e no claro, se era possível haver alguém estágio superior de realização e de felicidade fora dela. Eu, que fui sedado com a ilusão de que todas as nossas coincidências nos almagamaram num fim de tarde sem som nem defeitos em Pirenópolis. Eu, que achava que tinha renunciado à liberdade em nome de um amor que não dá pra se viver sem. E que só percebi agora que estou verdadeiramente preso, trancado numa solidão cuja chave só ela tem.
Eu, que fiquei e chorei. Ela, que acelerou e se foi.
As lágrimas me vazaram caudalosas, sem pena do dono. Eram as saudades de um futuro que me saudou, só pra depois se despedir, sem qualquer cerimônia. Era a falta de você e eu, amor, dá beijo no olho. Era a ausência física de uma aliança eternizada com o nome dela e com uma data só nossa. Era a bronca com os nossos meninos, que teimam em não vir dotar-me de sentido e de eternidade. Era a distância do olhar dela, aquele mesmo, do eu te amo mais do que você consiga imaginar em tantos tons de açúcar e de mel. Era a sensação de que se esvaia o alucinógeno que mareou com magia a minha visão da terra e do céu. Era a decepção com todas essas cidades e serras miseráveis que prometeram ser encantadoras aos meus sentidos e que agora estão privadas da companhia dela. Era o Leblon de todos os meus sonhos com ela, já sem ela.
Ela quis morrer pra mim, só para que ela pudesse deixar de ser ela mesma. Ela quis morrer pra mim, mas, antes, ela viveu intensamente em todos os meus órgãos vítimas de metáforas fáceis dos quais ela havia sido a proprietária. Ela quis morrer pra mim, mas, antes, ela viveu em cada dos meus segundos, que de tão cheios de amor-e-tesão-e-futuro-e-vida pareceram até minutos de glória romântica. E nossos minutos juntos assemelharam-se a horas de plenitude em Roma ou no quintal da vovó. E os dias com ela, e principalmente as noites, foram iguaizinhos ao amor dos filmes tristes, antes de o serem. E nossos poucos anos se pareceram com uma vida inteira feliz.
Ela, que por bastante tempo – aliás, bastante nada! – preencheu este vácuo torácico, que agora voltou, fincou pé e já não quer mais largar do meu. Ela, que me deu de presente aquelas lentes, e agora me roubou as cores do mundo. Ela, que levou embora também a graça que tinha me emprestado. Ela, que, é claro, tinha sido trazida à luz só pra ficar comigo e me deixá-la fazer feliz até o fim do rio. Ela, dona daquele corpo desenhado por um algoritmo celeste e diabólico, feito para condenar-me ao desejo e às saudades. Ela, que, já despejada da suíte imperial dos meus afetos, sabe que sua tatuagem só escorrerá depois da última rebolada da lua. Ela, que, pouco antes de entrar no maldito carro, estivera tão ausente em minha presença, e cuja ausência me segue tão irremediavelmente presente.
Eu, que, talvez até prematuramente, fui brindado com a descoberta da praia deserta onde passa o meridiano em que a paixão se transforma em amor. Eu, que me perguntei em tantas noites, no escuro e no claro, se era possível haver alguém estágio superior de realização e de felicidade fora dela. Eu, que fui sedado com a ilusão de que todas as nossas coincidências nos almagamaram num fim de tarde sem som nem defeitos em Pirenópolis. Eu, que achava que tinha renunciado à liberdade em nome de um amor que não dá pra se viver sem. E que só percebi agora que estou verdadeiramente preso, trancado numa solidão cuja chave só ela tem.
Eu, que fiquei e chorei. Ela, que acelerou e se foi.
Brasília, julho de 2007