27 outubro 2006

Conversas de meia-noite com Pipe Pipoca

Pipe Pipoca foi o filho mais velho da minha mãe com meu pai; irmão mais velho da minha irmãzinha caçula. Nossa relação, no entanto, se restringe ao compartilhamento do mesmo corpo, que amadureceu ao longo de tantos janeiros e já sôfrego de alguns excessos. Desconhece-se o paradeiro do menino, que desapareceu em algum contemplar do mar, no fundo de uma garrafa, nos desvios de uma estrada ou iludido pelos cheiros do amor. Há quem diga que Pipe Pipoca e eu ainda guardamos o mesmo olhar, de malandragem e auto-piedade. Fora isso, pouca coisa nos uniu por muito tempo. Foram as melancólicas, embora animadas, conversas de meia-noite que nos reaproximaram.
Descobri que aos quatro anos, o Pipe Pipoca perguntou a uma tia querida, de posse de um globo daqueles que acendem, se ele poderia ter o mundo até os oito – a primeira idade da maturidade ante seus olhos. A tia disse que até os quarenta – casa aproximada do pai à época - era possível. Chegando aos oito, Pipe decidiu o que queria da vida. De alguma maneira mantinha a idéia do globo luminoso.
Mas ai chegaram os mares, as garrafas, as estradas e os cheiros do amor...
Decepcionar o Pipe Pipoca é a maior dor que jamais experimentei. Em nossas conversas de madrugada, ele me confessou que aos 21 anos eram superadas suas mais ambiciosas expectativas quanto às possibilidades da vida. O de 24 o frustrava profundamente. O de 21 dava a impressão de, ao mesmo tempo, ter construído alguma coisa e de viver a vida com paixão. O de 24 deixou a vida correr, embora a tenha vivido com entusiasmo raro.
Só o de 25 poderá acalentar a tristeza de Pipe Pipoca. O de 40 dificilmente terá o mundo, mas não mais decepcionarei o Pipe Pipoca nem este escriba.
Brasília, 2005

Pra tudo se acabar na quarta-feira, parte I

Devo ter procurado Diamantina em meus sonhos por muitos anos e sonos. Mesmo desconhecendo seu nome ou sobrenome. Também me fugiam seu logradouro real, aparência e, afinal, a data de quando se poria ante meus olhos. Identificava-a em tons borrados, em imagens parcialmente identificadas. Reconhecia-a em aspecto geral, em algumas feições. Sabia das multidões ensandecidas, tinha uma antevisão das ruas apertadas, da descoberta de mistérios a cada encontro de dois becos. Conhecia-a somente do gosto saudoso das sensações reveladas pelo meu peito ansioso e premonitório.
Diamantina Minas Gerais, muito prazer. Mora pacata e bucolicamente entre serras mineiras. Cidade histórica, foi rota dos diamantes do ciclo de extração de minérios do século XVIII, de lá nasceu o lendário presidente JK. Conservou seu aspecto setecentista, tombada pelo patrimônio histórico da Unesco, manteve-se no formol dos tempos, relativamente imaculada pela modernização; virgem de seus vícios, carente de suas virtudes. Não fossem as lâmpadas elétricas nas ruas e algumas outras poucas inovações tecnológicas, transmitiria ao viajante inadvertido a impressão de regresso ao Brasil colonial ou mesmo a uma vila ibérica de séculos atrás. Arquitetura barroca, chão de pedra, ladeiras cicatrizando a geografia pré-urbana compõem a paisagem de um reduto de charme que resguarda em sua alma passagens ilustrativas da história nacional.
Ocorre que a cada fevereiro ou março (varia o mês segundo um calendário cujo funcionamento prefiro desconhecer), a histórica, pacata, bucólica, turística e charmosa cidadela do interior mineiro sai do casulo de castidade e transforma-se em palco de excessos, de prazeres, de frustrações, de encontros, desencontros, de euforia atroz. Multidões, orçadas de 40 a 100 mil pessoas, ocupam a praça central do Mercado Velho, a Rua da Quitanda e, ao que me parece, as ruelas e esquinas de cinco outros quarteirões centrais, buscando não muito mais que a ebriedade dos entorpecentes de variada tipologia, a cumplicidade dos comparsas viajantes e, sobretudo (sejamos francos, já que estamos no Brasil mesmo), a satisfação amorosa-sexual.
Ao som literalmente diuturno de orquestras populares que combinam temas da música popular brasileira - sabidos de cor, cantados em letra e gritados em refrão indiscriminadamente por todos os convivas, independente da pigmentação de suas peles, da disponibilidade de meios de pagamentos em suas carteiras ou do credo em seus corações - com uma batucada ritmada de colorido afro-brasileiro, multidões embalam-se no carnaval de Diamantina.
De vez em quando cai uma tempestade, que só contribui para que homens e mulheres, meninas e meninos busquem com maior afinco o calor do sexo oposto. Pronto! Música alta, multidão e chuva são os pretextos para o povo beijar na boca.
Invariavelmente, a noite metamorfoseia-se em manhã, em um espetáculo de rara beleza, não obstante inevitável – talvez só não nos seja notável na opressão da rotina. Após uma noite atravessada de desgaste físico, satisfação carnal e explosão inconsciente de brasilidade, a banda brinda-nos com canções cujos versos parecem ter sido compostos para servir de trilha sonora para o momento, ao passo que o Sol sai de seu refúgio atrás das montanhas e resolve dar as caras, passando a iluminar o sítio, a constranger os olhos cansados dos convivas e a conformar o espetáculo natural em fusão com o humano
O roteiro para participar desta folia com um quê de lirismo: saindo de Brasília, toma-se a BR-040 até Felixlândia, dobra-se à esquerda rumo de Curvelo, onde, por sua vez, encara-se o trecho final pela BR-259. Uns 750 km da porta de casa a um jardim dos prazeres. Assim foi por três carnavais da minha juventude.
Não saberia dizer onde tudo começou, nem sei se é tão importante buscar as raízes na minha história pessoal da minha aterrissagem em Diamantina. Fato é que na sexta-feira de carnaval de 2002 estava dirigindo meu carro em seu rumo, em 2003, repetia o itinerário e, na quarta-feira de cinzas de 2004, dormia no caminho de volta o sono dos saudosistas.
Carreguei e fui carregado por grupos diferentes de amigos a cada ano, cruzei com colegas de diversas origens, hospedei-me em cantos distintos da cidade. Mas aquela que recebeu meus beijos mais sinceros foi a mesma, inquilina do meu coração, somente por aquelas temporadas, e protagonista da história que um dia pretendo narrar.
Diamantina é a expressão quintessencial da minha juventude; é onde meus delírios de puberdade se verteram em realidade e onde já recaem as mais flagrantes saudades do início de uma adultice que poderia demorar mais para chegar.
Brasília, 2004

Jus eros

Vou me mudar pra Brunna
Pra aprender a falar brunnês
Vou fazer de sua e minha etnia una
De sua religião confessar-me freguês.

Lá me apossarei das praias
Lá suas florestas irão me tragar
Lá naufragarei em suas saias
Só pra rimar verbos terminados em ar.

Gosto de me fartar de suas iguarias
Para adormecer sob a loira luna
Gosto de rejeitar as forasteiras marias
Para embriagar-me só dos vinhos de safra brunna.

Preciso surfar em suas montanhas
Necessito poetizar em seus bares
Costumo romancear nossas façanhas
E me matar de amor em seus mares.

Retrato sua vida noturna
Canto a um país feito por dois
Pago tributo a sua alegria soturna
E rendo-me à nação que sois.

Tenho já pele encantada de seu Sol
Tenho já de cor sua constituição
Sou torcedor da Seleção Brunna de Futebol
E Grêmio Recreativo Unidos da Brunna de coração.

Agora Brunna é meu país
É onde estou livre do imoral
Sei que aqui não tenho raiz
É tarde! Já pedi asilo sexual.

Minha pátria,

Quero discursar na ONU em seu nome
Quero um infinito laissez-passer
Quero ser-lhe o menino e o homem
Quero seu presidente me eleger
Quero me fazer escravo de suas delícias
Quero todas suas fronteiras percorrer
Quero ser caçado por suas milícias
Quero suas leis desobedecer
Quero revogar sua independência
Quero Brunna recolonizar
Quero ir preso por apaixonada demência
Quero de Brunna & Filipe lhe rebatizar
Quero ser deportado pela aduana
Quero entrar e sair quando preferir
Quero ser solto só pra voltar em cana
Não! Quero entrar em Brunna pra nunca mais sair.

Brasília, março de 2006

23 maio 2006

Mudança de ares

Contigo vou a todos os lugares,
Testemunhar todos os luares
Ainda que em lombo de muares
Até o Quilombo de Palmares
Cicatrizando quaisquer mares
Ou de volta a Buenos Aires
Mas se comigo não te casares
Rendo-me de vez aos velhos bares.
Brasília, maio de 2006

22 maio 2006

Carola

O percurso era o miserável cotidiano. Saída para o almoço. Nada especial. Multidões em desjejum. Multidões de poucos adjetivos. Pausa abrupta. O rosto era lindinho, branquinha, nariz arrebitado, cabelos lisos, longos, castanhos. Paulistíssima. Do tipo carola boa, dessas de periferia. Bonita entre feias. Muito bonita entre muito feias. E os quinhentos estavam mesmo abaixo do pescoço. Formas musicais. É, de violão; não deu pra achar metáfora menos gasta. Gostosa, que outra palavra? Cintura fina, encaminhada por blusinha preta, apertada. Tal qual fronteira, a cinturinha separava e emendava terras abundantes, latifúndios carnais. As coxas e as bundas constrangidas com veemência por jeans dos baratos. E os seios escapavam à superfície do decote, insuficiente frente ao par de necessidades. A pele do colo, branca, polpuda, reluzente na luz do frio, convidando-nos todos às posteridades mais sufocantes do início de tarde. Só uma jaquetinha a lembrar da carolice. Em quinze segundos, de novo a angústia impotente dos quinze anos. Catatônico, catártico, freada ridícula, torcicolo, adolescente. Arrastava-a um namorado. Crente, sem rosto, nem cores. Concorrência fraca, ela seria até possível fosse um dia especial. Quinze segundos. Multidão em jejum, multidões sem adjetivos.
Brasília, maio de 2002

18 maio 2006

Professor

Todos os dias. Menos quinta, quando, presume-se, dava aulas. Era sua rotina em um boteco, daqueles comuns a nós todos. À companhia, uisquinho ou caipirinha. Sempre no diminutivo: é a intimidade. Inicialmente, gelo no copo, logo, na corrente urinária, tudo rumo ao vaso sanitário. Um cigarrinho, quase sempre carlton vermelho, a cada quarto de hora levado à boca. Perninha cruzada como os intelectuais e os caipiras, daquele jeito que uma coxa sobrepõe-se quase completamente à outra e que o pezinho fica balançando, dentro de sandálias comuns aos pescadores e aos comunistas. Só desfilava de camisas de manga curta, todas alheias à moda, algumas bem coloridas, até floridas. Quando a sena acumulava, fazia uma fezinha. Dez reais religiosamente investidos na pacificação da consciência, transferidos à mão desses vendedores de sonhos que gritam “45 milhões!” com a mesma indiferença com que oferecem amendoim torrado. O bar era sua segunda casa, seu home pub, uma extensão de si, seu nicho de identidade. Lá, era o professor.
Porte mediano, branquelo, dourado pela experiência solar. Barbas fartas nos bigodes, costeletas e, claro, no queixo. Madeixas semilongas - todas há muito brancas. Óculos de magistério e barriga laboriosamente conquistada naquele e em tantos outros bares... Mas o que verdadeiramente convocava atenção para sua figura era a infinita reciclagem de suas companhias. Comprimindo, vai lá, umas 50 e tantas primaveras e carnavais em seu curriculum vitae – embora pouco fizesse referências às primaveras e não tivesse guardado todas as memórias de seus carnavais – o professor era uma unanimidade entre os freqüentadores do boteco. Jovens, senhoras, contemporâneos, garçons, homens que poderiam constar de sua prole, engravatados, putas, todos orbitavam à mesa do professor. Cumprimentavam-no efusivamente, cheios de intimidade e carinho. As meninas – nem sempre tão meninas – enchendo-o de beijinhos nas bochechas. Todos, sem exclusão, trocando minutos ou horas de prosear com o sol daquele nanocosmos. Se estava só, é porque alguma de suas companhias fora ao banheiro ou acabara de partir, e, naturalmente, outra estava por chegar. Logo, um sorriso de bêbado ou o pedido de um dos agregados para esquentar-se num abraço fraterno, paterno ou professoral.
Quando ela passava, ela, uma qualquer de formas sinuosas, poucos se viravam para contemplação naquele bar amigo de frouxos e balzacas. O professor, e nós, naturalmente, acompanhávamo-na com os olhos até as curvas fugirem no horizonte. Depois, sabidos, nós e o professor, da admiração que compartilhamos (aliás, nosso mais aparente ponto em comum, além do comparecimento ao mesmo recinto), consentíamos com a cabeça, franzindo as sombrancelhas, sem qualquer exagero ou afetação. O professor preferia as calipígeas, sem distinção de idade ou gosto para se vestir. Não, talvez naquela idade não preferisse nada em especial, parecia saciar-se com a exposição da carne feminina. À hora de ir embora, outro consentimento discreto.
Com ele rivalizávamos, sem sucesso, pela condição de clientes mais assíduos do local. Mas mesmo quando o lográssemos em freqüência, em nada lhe assemelhávamos em presença e importância. Ele, o professor. Nós, pupilos.
Consta no imaginário discente que o professor foi hippie, viajou sem bagagem nem roteiro, rodou alguns continentes, dormiu com toda uma geração, bebeu, fumou e injetou o que estava à mão. Exilado pela ditadura, engrossou o coro dos libertários, fez do mundo livre seu porto seguro, circulou manifestos de punho próprio. Foi yuppie, ganhou muitíssimo dinheiro na bolsa de valores e cheirou toda uma pequena província de um país andino. Foi grunge, alcançou algum sucesso com a música, foi pioneiro no ramo da informática, dormiu com outra geração.
Ministrou aulas em quase tantas cidades quanto os estabelecimentos noturnos em que desfaleceu inconsciente. Não tardou em lecionar privadamente para suas alunas de mais indulgência. Irradiou saber, sem paralelo em litrometragem. Fez amizades, de políticos e caminhoneiros, de bandidos aos de mais fé. Conheceu as personalidades, as locais, é verdade, mas também algumas de mais manchetes, de todos os seus tempos. Escreveu toda uma prateleira de livros, tocou violão em ginásios lotados, viveu de esculturas num refúgio de bacanas, ganhou uma eleição para vereador num município que não existe mais.
Verdade? Não. Sim! Talvez... Quem sabe? Professor da vida, de histórico acadêmico irrepreensível, brilhante. Graduou-se, fez mestrado, doutorado, pós-doc, livre-docência... em gente! Se viveu todas e mais outras, as recordações permanecem guardadas, sem a necessidade de chaves, na imaginação de seus aluminados ou nos encontros etílicos consigo mesmo em um travesseirinho magrinho e surrado.

Brasília, outubro de 2004