27 outubro 2006

Pra tudo se acabar na quarta-feira, parte I

Devo ter procurado Diamantina em meus sonhos por muitos anos e sonos. Mesmo desconhecendo seu nome ou sobrenome. Também me fugiam seu logradouro real, aparência e, afinal, a data de quando se poria ante meus olhos. Identificava-a em tons borrados, em imagens parcialmente identificadas. Reconhecia-a em aspecto geral, em algumas feições. Sabia das multidões ensandecidas, tinha uma antevisão das ruas apertadas, da descoberta de mistérios a cada encontro de dois becos. Conhecia-a somente do gosto saudoso das sensações reveladas pelo meu peito ansioso e premonitório.
Diamantina Minas Gerais, muito prazer. Mora pacata e bucolicamente entre serras mineiras. Cidade histórica, foi rota dos diamantes do ciclo de extração de minérios do século XVIII, de lá nasceu o lendário presidente JK. Conservou seu aspecto setecentista, tombada pelo patrimônio histórico da Unesco, manteve-se no formol dos tempos, relativamente imaculada pela modernização; virgem de seus vícios, carente de suas virtudes. Não fossem as lâmpadas elétricas nas ruas e algumas outras poucas inovações tecnológicas, transmitiria ao viajante inadvertido a impressão de regresso ao Brasil colonial ou mesmo a uma vila ibérica de séculos atrás. Arquitetura barroca, chão de pedra, ladeiras cicatrizando a geografia pré-urbana compõem a paisagem de um reduto de charme que resguarda em sua alma passagens ilustrativas da história nacional.
Ocorre que a cada fevereiro ou março (varia o mês segundo um calendário cujo funcionamento prefiro desconhecer), a histórica, pacata, bucólica, turística e charmosa cidadela do interior mineiro sai do casulo de castidade e transforma-se em palco de excessos, de prazeres, de frustrações, de encontros, desencontros, de euforia atroz. Multidões, orçadas de 40 a 100 mil pessoas, ocupam a praça central do Mercado Velho, a Rua da Quitanda e, ao que me parece, as ruelas e esquinas de cinco outros quarteirões centrais, buscando não muito mais que a ebriedade dos entorpecentes de variada tipologia, a cumplicidade dos comparsas viajantes e, sobretudo (sejamos francos, já que estamos no Brasil mesmo), a satisfação amorosa-sexual.
Ao som literalmente diuturno de orquestras populares que combinam temas da música popular brasileira - sabidos de cor, cantados em letra e gritados em refrão indiscriminadamente por todos os convivas, independente da pigmentação de suas peles, da disponibilidade de meios de pagamentos em suas carteiras ou do credo em seus corações - com uma batucada ritmada de colorido afro-brasileiro, multidões embalam-se no carnaval de Diamantina.
De vez em quando cai uma tempestade, que só contribui para que homens e mulheres, meninas e meninos busquem com maior afinco o calor do sexo oposto. Pronto! Música alta, multidão e chuva são os pretextos para o povo beijar na boca.
Invariavelmente, a noite metamorfoseia-se em manhã, em um espetáculo de rara beleza, não obstante inevitável – talvez só não nos seja notável na opressão da rotina. Após uma noite atravessada de desgaste físico, satisfação carnal e explosão inconsciente de brasilidade, a banda brinda-nos com canções cujos versos parecem ter sido compostos para servir de trilha sonora para o momento, ao passo que o Sol sai de seu refúgio atrás das montanhas e resolve dar as caras, passando a iluminar o sítio, a constranger os olhos cansados dos convivas e a conformar o espetáculo natural em fusão com o humano
O roteiro para participar desta folia com um quê de lirismo: saindo de Brasília, toma-se a BR-040 até Felixlândia, dobra-se à esquerda rumo de Curvelo, onde, por sua vez, encara-se o trecho final pela BR-259. Uns 750 km da porta de casa a um jardim dos prazeres. Assim foi por três carnavais da minha juventude.
Não saberia dizer onde tudo começou, nem sei se é tão importante buscar as raízes na minha história pessoal da minha aterrissagem em Diamantina. Fato é que na sexta-feira de carnaval de 2002 estava dirigindo meu carro em seu rumo, em 2003, repetia o itinerário e, na quarta-feira de cinzas de 2004, dormia no caminho de volta o sono dos saudosistas.
Carreguei e fui carregado por grupos diferentes de amigos a cada ano, cruzei com colegas de diversas origens, hospedei-me em cantos distintos da cidade. Mas aquela que recebeu meus beijos mais sinceros foi a mesma, inquilina do meu coração, somente por aquelas temporadas, e protagonista da história que um dia pretendo narrar.
Diamantina é a expressão quintessencial da minha juventude; é onde meus delírios de puberdade se verteram em realidade e onde já recaem as mais flagrantes saudades do início de uma adultice que poderia demorar mais para chegar.
Brasília, 2004

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