Chegou sexta-feira. Hoje tem samba. Tira o terno, mete uma calça jeans, afrouxa aí a gravata. O endereço é meio estranho, mesmo em Brasília, mas ajuda a preservar uma democrática exclusividade – ou seria uma exclusiva democracia? Em conhecendo o esquema, entra quem quer, canta quem quer, se diverte também só quem faz questão; à condição só de, antes de o sol expulsar, ir embora voluntariamente. Só que, antes disso, a noite a se atravessar.
As cores e os tons distorcidos pela meia-luz, produzida, de um lado, pelas poucas chamas à mesa e também pelas lâmpadas de brilho hesitante, penduradas no teto, sofrendo de vertigem pela altura que as separam do chão de estrelas; de outro, pelo escuro ofertado pelo firmamento, sempre mais negro do que azul, ora salpicado de marias e cruzeiros; ora povoado por nuvens, essas de todas as formas, cores e tamanhos, a prenunciar que o céu também tem direito a se emocionar com a nossa festa. Um impressionismo de Van Gogh, mais do que o de Renoir, por mais noturno, boêmio e humano: antes Café de Terrace do que ponte sobre o laguinho.
As imagens borradas pela ausência dos óculos de grau, esquecidos propositalmente em casa ou deixados ao abrigo do carro, só para lembrar-me de que a juventude é uma batalha diária para o jovem a envelhecer na repartição. Serve também para preservar a ilusão de que as meninas do Leblon e da Asa Norte continuam a olhar pra mim. E – por que não admiti-lo? – para permitir que elas, aquelas mais afeitas ao tato do que aos olhos, sejam depositárias de desejos indizíveis em horário nobre.
As lembranças embaçadas pela bebida. Sim, sexta-feira é fuga e conforto na embriaguez. Sua noite talhada para escolhermos o personagem de conveniência, uma versão melhor, mais divertida e inconveniente de nós mesmos, dois tons acima. A cerveja inteligentemente gelada, como deve ser nos trópicos. A minha é sua, a sua é minha, antes que esquente. Quando esquentar, é do chão. No terreno etílico, ao menos em nossas sextas-feiras, não se pratica a monogamia. A pinga, também geladinha, em doses prudentemente menores e mais infrequentes. A dor de cabeça, freguês, tá garantida. Mas só amanhã de manhã. E a manhã é preocupação para amanhã.
O bar do Marcelão, asfaltado por azulejos, como no Rio dos meus sonhos – ou naquele do Nelson Rodrigues, nos anos 70, antes ou sempre. A vida como ela é é a vida exatamente como a gente queria ela fosse, pelo menos a cada sexta-feira samba.
Brindam-nos com sua presença Cartola e Adoniran, Chico e Zeca, Clara e Marisa, Martinho, Paulinho e Toquinho. E Vinícius, ele sobretudo, pelo menos para mim. Todos encarnados pelo Gustavo, criador e messias daquele universo, mesmo em sua ausência portenha. O samba em toda a sua seriedade e liturgia, com sua alegria melancólica, com as saudades congênitas do momento que se está vivendo. O violão para trazer respeitabilidade; o cavaquinho, brasilidade; obumbo, um fundo épico; às vezes, só às vezes, a beleza triste da cuíca; e o coral de vozes, um mosaico perfeito de fragmentos imperfeitos, do qual você e eu, uma vez pelo menos, já participamos.
E têm as moças, as divindades e as de todos os dias, as sambistas e as patricinhas, as burguesinhas chicólatras e as hipongas do Lago Sul, as muitas indiferentes, as poucas interessadas, as interessadas em pele de indiferença, as indiferentes transpirando falso interesse, as minhas, as quase minhas, as infelizmente jamais minhas, as infelizmente só uma vez minhas, as ex-minhas e, finalmente, ela, a-quem-sabe-um-dia-de-novo minha. Corpos sem rosto, rostos sem corpo. Decotes sem dona, pernas sem logradouro. Corações cheios e vazios, convidativos e proibidos.
E os amigos, sempre, muitos, todos, nossos, vocês. Longas horas de voo em terra firme, litrometagem de dar inveja a alambique. Saliva bem gasta, abraços bem dados, na chegada, no durante e na partida, mas só para quem merece e para quem quer. A sexta-feira samba como palco, frequentemente na função de maestro, a dirigir a cumplicidade que se estabelece entre os camaradas – ou a variação do tema que melhor lhe aprouver. A certeza de que daquele momento – se lembra, meu irmão? – a gente vai se lembrar até quando a cabeça nevar e a prole começar a gostar de samba.
A sexta-feira samba é habitar o Brasil, mesmo que longe dele. Todos os sentidos esbaldados em comunhão e as emoções em amálgama. A sexta-feira samba como saudade, como espera simultânea da próxima. A certeza de que aquilo, um dia, vai acabar. Vai acabar, porque eu vou ter mesmo que ir embora. Vai acabar porque essas coisas sempre acabam, não se lhes é permitido continuar, porque esta, feliz ou infelizmente, é a lógica deste mundo. As saudades da sexta-feira samba durante ela própria, tal como é com o próprio samba, que sabe se cantar e se chorar.
O convite – ou melhor, a intimação – costuma invadir minha caixa eletrônica, com regularidade quase tão religiosa quanto a devoção que a ele se deve. Quase sempre a primeira sexta-feira do mês, uma data, para nós pagãos, já santa.
As cores e os tons distorcidos pela meia-luz, produzida, de um lado, pelas poucas chamas à mesa e também pelas lâmpadas de brilho hesitante, penduradas no teto, sofrendo de vertigem pela altura que as separam do chão de estrelas; de outro, pelo escuro ofertado pelo firmamento, sempre mais negro do que azul, ora salpicado de marias e cruzeiros; ora povoado por nuvens, essas de todas as formas, cores e tamanhos, a prenunciar que o céu também tem direito a se emocionar com a nossa festa. Um impressionismo de Van Gogh, mais do que o de Renoir, por mais noturno, boêmio e humano: antes Café de Terrace do que ponte sobre o laguinho.
As imagens borradas pela ausência dos óculos de grau, esquecidos propositalmente em casa ou deixados ao abrigo do carro, só para lembrar-me de que a juventude é uma batalha diária para o jovem a envelhecer na repartição. Serve também para preservar a ilusão de que as meninas do Leblon e da Asa Norte continuam a olhar pra mim. E – por que não admiti-lo? – para permitir que elas, aquelas mais afeitas ao tato do que aos olhos, sejam depositárias de desejos indizíveis em horário nobre.
As lembranças embaçadas pela bebida. Sim, sexta-feira é fuga e conforto na embriaguez. Sua noite talhada para escolhermos o personagem de conveniência, uma versão melhor, mais divertida e inconveniente de nós mesmos, dois tons acima. A cerveja inteligentemente gelada, como deve ser nos trópicos. A minha é sua, a sua é minha, antes que esquente. Quando esquentar, é do chão. No terreno etílico, ao menos em nossas sextas-feiras, não se pratica a monogamia. A pinga, também geladinha, em doses prudentemente menores e mais infrequentes. A dor de cabeça, freguês, tá garantida. Mas só amanhã de manhã. E a manhã é preocupação para amanhã.
O bar do Marcelão, asfaltado por azulejos, como no Rio dos meus sonhos – ou naquele do Nelson Rodrigues, nos anos 70, antes ou sempre. A vida como ela é é a vida exatamente como a gente queria ela fosse, pelo menos a cada sexta-feira samba.
Brindam-nos com sua presença Cartola e Adoniran, Chico e Zeca, Clara e Marisa, Martinho, Paulinho e Toquinho. E Vinícius, ele sobretudo, pelo menos para mim. Todos encarnados pelo Gustavo, criador e messias daquele universo, mesmo em sua ausência portenha. O samba em toda a sua seriedade e liturgia, com sua alegria melancólica, com as saudades congênitas do momento que se está vivendo. O violão para trazer respeitabilidade; o cavaquinho, brasilidade; obumbo, um fundo épico; às vezes, só às vezes, a beleza triste da cuíca; e o coral de vozes, um mosaico perfeito de fragmentos imperfeitos, do qual você e eu, uma vez pelo menos, já participamos.
E têm as moças, as divindades e as de todos os dias, as sambistas e as patricinhas, as burguesinhas chicólatras e as hipongas do Lago Sul, as muitas indiferentes, as poucas interessadas, as interessadas em pele de indiferença, as indiferentes transpirando falso interesse, as minhas, as quase minhas, as infelizmente jamais minhas, as infelizmente só uma vez minhas, as ex-minhas e, finalmente, ela, a-quem-sabe-um-dia-de-novo minha. Corpos sem rosto, rostos sem corpo. Decotes sem dona, pernas sem logradouro. Corações cheios e vazios, convidativos e proibidos.
E os amigos, sempre, muitos, todos, nossos, vocês. Longas horas de voo em terra firme, litrometagem de dar inveja a alambique. Saliva bem gasta, abraços bem dados, na chegada, no durante e na partida, mas só para quem merece e para quem quer. A sexta-feira samba como palco, frequentemente na função de maestro, a dirigir a cumplicidade que se estabelece entre os camaradas – ou a variação do tema que melhor lhe aprouver. A certeza de que daquele momento – se lembra, meu irmão? – a gente vai se lembrar até quando a cabeça nevar e a prole começar a gostar de samba.
A sexta-feira samba é habitar o Brasil, mesmo que longe dele. Todos os sentidos esbaldados em comunhão e as emoções em amálgama. A sexta-feira samba como saudade, como espera simultânea da próxima. A certeza de que aquilo, um dia, vai acabar. Vai acabar, porque eu vou ter mesmo que ir embora. Vai acabar porque essas coisas sempre acabam, não se lhes é permitido continuar, porque esta, feliz ou infelizmente, é a lógica deste mundo. As saudades da sexta-feira samba durante ela própria, tal como é com o próprio samba, que sabe se cantar e se chorar.
O convite – ou melhor, a intimação – costuma invadir minha caixa eletrônica, com regularidade quase tão religiosa quanto a devoção que a ele se deve. Quase sempre a primeira sexta-feira do mês, uma data, para nós pagãos, já santa.
Washington, DC, outubro de 2011
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