Mal entro no vagão-restaurante do trem noturno e o barman, avistando-me a distancia, se antecipa:
“Mr. Nasser, so good to see you. The usual, I take it.”
Habitué do noturno que singra dos pantanos washingtonianos até o coração de pedra de Manhattan, por trabalho ou por lazer, respondo:
“Johnnie Walker Black Label, tall glass, three rocks: The usual, Charles”.
Distraio-me com a bossa nova a irrigar o ar, algo entre a arte suprema e a musica de elevador: batata, Bebel Gilberto. Na mesa do fundo do vagão, noto, pelo reflexo do espelho, um rosto familiar, algo envelhecido, o fogo dos cabelos apagado pelas cinzas da meia idade. Roma, uns seis ou sete anos antes, em um dos poucos bares de final de noite da Cidade Eterna. Juras de amizade eterna, de contato estreito, de convites recíprocos: promessas não-cumpridas de lado a lado, quiçá com mais frustração deste. Havíamos ambos escalado as colinas de nossas organizações, Cliff chegado mais alto.
“How are you, Cliff?” – interrompo a leitura e o drinque.
“Old chap, what a surprise”. – O sotaque britânico acentua o caráter multinacional do encontro.
Novas promessas, novas juras, novos convites, desta feita efetivamente confirmados. Uma temporada no Algarve, com esposas, após a reuniao de Istambul. Networking nos tempos de Facebook, sem necessidade dele.
***
Quase não consigo ficar em pé. O trem faz curvas tão inadvertidas que preciso me apoiar na grade que impede as malas e outros apetrechos asquerosos de cairem sobre as cabeças alheias ou, pior,sobre a minha. Uma senhora, cujo quadril supera largamente o vão entre as cadeiras, se levanta à minha frente com uma agilidade atlética desproporcional à sua silhueta e saúde, permitindo-se dispensar solenemente qualquer mesura. Perdão: solene era seguramente uma palavra ausente no vocabulário e no repertório de comportamentos daquele dinossauro precoce.
Chego ao arremedo de bar do trem: Doritos de várias cores, sabores e, infelizmente, cheiros; Coca-Colas de todos ou nenhum açúcares; latas de Budweiser todas estupidamente geladas – estupidamente mesmo. O atendente, maltratado ao longo de muitos e longos quilômetros – miles! –, grunhe. Eu grunho de volta: coffee. Hediondo, o chafé era de envergonhar até carioca.
De volta ao meu assento, minha esposa tenta dormir ao som da orquestra de reclamações, choros, palmas e, pior, apitos emitidos pelo videogame de uma mocinha cuja sonora família estava recém-instalada em nossa vizinhança – para o nosso azar e do resto da vizinhança. A tregua só nos é concedida quando a voz robótica e desinteressada do maquinista anuncia a chegada à Penn Station.
***
“It’s the night train, not the Orient Express, for Christ’s sakes”. – um amigo de mais luzes e menos esperanças já me havia antecipado. A vida na estação da pós-modernidade é bastante mais Northern Regional do que Orient Express.
Washington, DC, junho de 2011
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