O percurso era o miserável cotidiano. Saída para o almoço. Nada especial. Multidões em desjejum. Multidões de poucos adjetivos. Pausa abrupta. O rosto era lindinho, branquinha, nariz arrebitado, cabelos lisos, longos, castanhos. Paulistíssima. Do tipo carola boa, dessas de periferia. Bonita entre feias. Muito bonita entre muito feias. E os quinhentos estavam mesmo abaixo do pescoço. Formas musicais. É, de violão; não deu pra achar metáfora menos gasta. Gostosa, que outra palavra? Cintura fina, encaminhada por blusinha preta, apertada. Tal qual fronteira, a cinturinha separava e emendava terras abundantes, latifúndios carnais. As coxas e as bundas constrangidas com veemência por jeans dos baratos. E os seios escapavam à superfície do decote, insuficiente frente ao par de necessidades. A pele do colo, branca, polpuda, reluzente na luz do frio, convidando-nos todos às posteridades mais sufocantes do início de tarde. Só uma jaquetinha a lembrar da carolice. Em quinze segundos, de novo a angústia impotente dos quinze anos. Catatônico, catártico, freada ridícula, torcicolo, adolescente. Arrastava-a um namorado. Crente, sem rosto, nem cores. Concorrência fraca, ela seria até possível fosse um dia especial. Quinze segundos. Multidão em jejum, multidões sem adjetivos.
Brasília, maio de 2002
3 comentários:
Como sempre, encontrei umas sacadas bem interessantes. Mas, também como sempre, o tom confessional e burocrático (e agora com metáforas de Relações Internacionais! "fronteiras") continua me incomodando. Acho que a minha sina é repetir essa ladainha. Quem sabe um dia me convencerei de que você nunca aceitará minhas críticas... Abração, M.
Achei que tivesse superado essa fase. Too bad.
Carola está feliz com o namorado. Tem medo de experimentar coisas novas. Sabe que ele seguirá a seu lado. O outro, que ela - carola, mas não boba - pegou olhando seu decote, seria apenas mais uma aventura proibida. Sim, porque ela teve as suas aventuras. Não à toa comprara a saia com a qual saiu no dia seguinte. Sozinha.
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